"Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço." - At. 6:3
Quem eram os "sete"? Eram diáconos? Se lermos toda a passagem do capítulo 6 de Atos (v. 1-6), não encontraremos nenhuma referência a diácono no texto. Por que, então, se diz que estes homens eram diáconos?
Devido ao verbo grego diaconeo, utilizado para descrever a função deles (v. 2). Contudo, esse termo tem como significado apenas "servir". Isso fica ainda mais claro, quando vemos o substantivo grego que dá nome ao ofício do diaconato, logo em seguida, aplicado não aos "sete", mas aos "doze". O termo "ministério" no verso 5 é o termo diaconia. Se formos dizer que os "sete" eram diáconos meramente devido ao verbo utilizado, teríamos que dizer que os apóstolos também o eram, devido ao substantivo atribuído a eles no mesmo contexto.
Lucas trata os apóstolos aqui chamando-os de "doze". Certamente, uma referência enfatizando o povo judeu. Este número tinha significado especial para Israel devido às doze tribos, também indicando o mesmo número de apóstolos chamados por Cristo, todos eles judeus.
Contudo, o número 7 representava os gentios, isto é, aqueles que não tinham a descendência de Abraão, em outras palavras, quem não era judeu. Lucas, companheiro de Paulo nas missões gentílicas, é o único que relata em seu evangelho o envio dos 70 (Lc. 10:1-20), número que os judeus atribuíam às nações do mundo listadas em Gn. 10. O 7 resumia esse significado.
Ainda mais relevante é o fato de todos os sete eleitos terem nomes gregos, incluindo um que era prosélito, Nicolau de Antioquia. Um prosélito era um gentio convertido ao judaísmo. Os sete eram todos helenistas, o que sugere que representavam uma liderança de judeus helenistas. A lista dos seus nomes inicia com os dois que mais se destacaram, distinguindo-os dos demais.
De Estêvão se diz que era "homem cheio de fé e do Espírito Santo" (At. 6:5). Tal distinção é feita devido à sua morte trágica, tornando-se o primeiro mártir do cristianismo. Tal relato e sua experiência de ver o Cristo glorificado (At. 7:56) não apenas informa, mas incentiva a igreja a perseverar até à morte diante das perseguições. Quanto a Filipe, ele foi o evangelista mais destacado na primeira metado do livro de Atos (8:4-13, 26-40). O que há de comum entre Estêvão e Filipe, além da responsabilidade que assumiram no grupo dos sete? Estavam pregando a Palavra, ou seja, não se limitaram à função que receberam. Estêvão parece ter se dedicado aos judeus helenistas em Jerusalém, pois foi "denunciado" pelos da sinagoga dos Libertos, judeus da dispersão que haviam sido escravos (At. 6:9). Filipe vai pregar em Samaria, algo muito mais difícil para um judeu da Judéia e menos complicado para um judeu helenista acostumado a viver entre os gentios (At. 8:4-13). Depois o vemos evangelizando um etíope (At. 8:26-40). Digno de nota é o relato do surgimento do apóstolo judeu helenista Saulo de Tarso ser introduzido por Lucas pela primeira vez em sua narrativa, justamente testemunhando a morte de Estêvão, um dos sete helenistas de Jerusalém. Claramente seu propósito foi vincular a história dos sete ao ministério gentílico desenvolvido algum tempo depois por Saulo. Lembre-se que Saulo não buscava apenas os gentios, mas procurava inicialmente os judeus das cidades gentílicas por onde passava. Seu apostolado era para judeus helenistas da dispersão, e também para o gentio (Rm. 1:16; 9:2).
Qual a conclusão a que chegamos? Os apóstolos concordaram com uma liderança helenista fora da jurisdição deles? A eleição dos sete oculta uma dissensão que na verdade era um racha na igreja? Obviamente, não.
Vemos que prontamente Pedro e João descem a Samaria após receberem notícias que o evangelho havia chegado ali pelo ministério de Filipe. Os samaritanos receberam o Espírito Santos pela oração e imposição de mãos dos apóstolos (At. 8:17). Não vemos competição entre os doze e os sete, mas cooperação e submissão por parte destes. Eles eram uma única igreja, embora naquele momento inicial pareça que buscavam evangelizar aqueles relacionados às suas raízes. Contudo, vamos à pergunta crucial: eram eles diáconos? É um anacronismo chamá-los de diáconos, isto é, esse termo e ofício só aparecem mais tarde nas igrejas gentílicas. Um dos critérios levantados para observar a antiguidade de uma carta de Paulo é a ausência de referência a presbíteros e diáconos, como por exemplo a carta aos Gálatas e as duas cartas aos Tessalonicenses, sugerindo uma data quando ainda não havia sido estabelecido esse modelo de liderança.
Todavia, podemos dizer que provavelmente é uma espécie de "ancestral" do ofício do diaconato como visto posteriormente nas igrejas gentílicas, por exemplo Fl. 1:1; 1Tm 3:8-13.
Finalmente, não estamos exagerando quando dizemos que o grande ministério da igreja é continuar a formar diáconos. Todos nós temos um chamado diaconal. Todos nós fomos chamados a sermos homens e mulheres cheios de fé e do Espírito. TODOS NÓS FOMOS CHAMADOS A SERVIR.