sábado, 18 de fevereiro de 2012

O jejum que agrada a Deus

Pr. Marcelo Gomes 
1ª Igreja Presbiteriana Independente - Maringá/PR

Jesus, em seu mais conhecido sermão, destacou três aspectos básicos da nossa espiritualidade: as esmolas, as orações e o jejum (Mateus 6:1-18). As esmolas revelam uma espiritualidade voltada para a solidariedade com o próximo; as orações, uma espiritualidade voltada para a intimidade com Deus; finalmente, o jejum, uma espiritualidade voltada para o autoconhecimento e a autodisciplina. Todas marcadas pela sinceridade de um coração devoto e pela discrição do adorador, cujo interesse é agradar exclusivamente a Deus.

Isaías foi o profeta que mais desenvolveu o tema do jejum (58:1-12). Falando em nome do Senhor, denunciou um jejum baseado unicamente em privação e sofrimento, como se Deus tivesse prazer em torturar o ser humano que criou. Também condenou os que jejuavam em desconexão com a oração e a solidariedade, eximindo-se da responsabilidade de transformar o mundo pela ética e o poder do reino de Deus. O Jejum que Deus escolheu é aquele que se priva do alimento para colocar o mesmo alimento na mesa do próximo, sobretudo quando é necessitado e oprimido.
Destes textos decorrem três importantes afirmações sobre o jejum:
1. O Jejum não pode ter um motivo pessoal, um interesse, um objetivo particular a conquistar. Não é uma espécie de greve de fome, que vise sensibilizar o Poder, para que atenda às reivindicações do que se priva de comer. Não é um reforço para a oração, como se ela se tornasse mais forte com a presença do jejum. É uma vitória sobre nós mesmos. Uma declaração de que não temos interesses ou necessidades que superem nossa carência de Deus e Sua palavra. “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4:4).
2. O Jejum não pode basear-se unicamente em ausência ou privação. Não pode ser simplesmente um deixar isso ou aquilo. Deve ser oportunidade de serviço e dedicação, solidariedade e fé. Se o jejum interesseiro é greve de fome, o jejum como deixar de comer é regime e contribui somente para a perda de peso. O jejum que agrada a Deus é aquele em que, ao invés de comer, o adorador dedica-se à oração ou ao exercício da misericórdia. Trata-se de uma substituição. Com o jejum declaramos ao nosso próprio corpo que as necessidades do reino e da fé são maiores que as necessidades físicas.
3. O Jejum não poder ser público, conhecido, divulgado. Não é oportunidade de autopromoção e não deve ser propagandeado. Não é indicado em tempos de festa e alegria, para não vitimizar o adorador diante dos seus pares, mas deve ser preferido em tempos de introspecção e redirecionamento, como um auxílio na descoberta de propósito e no preparo para as provas que virão. O jejum que se divulga, ainda que alegando intenções como motivação ou exemplo, deixa de ser jejum e passa a ser exibição. Deixa de ser espiritual e passa a ser carnal. Não é o jejum que Deus quer.
Perguntaram a Jesus por que seus discípulos não jejuavam. Ele respondeu que era por causa de sua presença com eles. Quando estivesse ausente, jejuariam (Marcos 2:18-20). E é por isso que jejuamos: nossa sede da presença de Jesus.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A leitura da Bíblia e a pós-modernidade



Por: Augustus Nicodemus Lopes

Um estudo de como alguns elementos filosóficos e religiosos da pós-modernidade afetam a interpretação bíblica dos evangélicos.

Meu alvo nesse pequeno artigo é mostrar como alguns elementos filosóficos e religiosos da pós-modernidade afetam a interpretação bíblica dos evangélicos, e em especial, dos reformados. Os reformados calvinistas têm tradicionalmente interpretado as Escrituras partindo de alguns pressupostos. Primeiro, que as Escrituras são divinas, em sua origem, infalíveis e inerrantes no que ensinam, seguras e certas no seu ensino. A Bíblia é a revelação da verdade. Só existe uma religião certa, a que se encontra revelada na Bíblia. Tudo o que é necessário à salvação e à vida cristã estão claramente reveladas na Escritura. Não há salvação fora do Cristianismo. Esta salvação é claramente exposta na Bíblia.

Existem alguns aspectos da pós-modernidade que ameaçam a interpretação reformada das Escrituras. Primeiro, o conceito de tolerância. Eu me refiro à idéia contemporânea de total complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero, valores morais e atitudes pessoais, ao ponto de nunca se externar seu próprio ponto de vista de forma a contradizer o ponto de vista dos outros. Esse tipo de tolerância não deve ser confundida com a tolerância cristã, pois resulta da falta de convicções em questões filosóficas, morais e religiosas: "A tolerância é a virtude do homem sem convicções" (G. K. Chesterton). É fortalecida pela queda na confiança na verdade, causada pelo avanço da pós-modernidade.

É aqui que entra o conceito de "politicamente correto". Significa aquilo que é aceitável como correto na sociedade onde se vive. É o que se faz em um grupo sem que ninguém seja ofendido. Por exemplo, não é "politicamente correto" tomar atitudes ou afirmar coisas que venham a desagradar pessoas, como por exemplo, emitir valores morais sobre o comportamento sexual das pessoas.

É "politicamente correto" ouvir o que os outros dizem sem qualquer crítica, reparo ou discordância explícita. Aqui devemos também notar em especial a preocupação em não ofender as minorias ou grupos oprimidos: negros, mulheres, pobres, pessoas do 3º mundo.

É preciso observar que existe uma tolerância exigida do cristão. Devemos tolerar as pessoas, mas não suas crenças, quando estas contrariam a verdade de Deus revelada nas Escrituras. Temos o dever de ouvir o que elas tem a dizer, e aprender delas naquilo em que se conformam com a verdade bíblica. Porém, tolerância ao erro, quando a verdade bíblica está em jogo, é omissão pecaminosa.

A tolerância tão característica da pós-modernidade pode afetar a interpretação da Bíblia levando as pessoas a interpretá-la a partir do conceito de "politicamente correto." Evita-se qualquer leitura, interpretação ou posicionamento que venha a ser ofensivo à sociedade ou comunidade a que se ministra. Textos bíblicos que denunciam claramente determinados comportamentos morais, como o homossexualismo, são domesticados com uma leitura crítica que os reduz a expressões retrógradas típicas dos machistas do século I. Textos que anunciam a Cristo como o único caminho para Deus são interpretados de tal forma a não excluir a salvação em outras religiões.

Um outro aspecto da pós-modernidade que afeta a leitura da Bíblia é o inclusivismo. Num certo sentido, é o resultado do multiculturalismo do mundo pós-moderno. Não há mais no mundo ocidental um país com uma cultura única e uma raça homogênea. Países ocidentais são multiculturais e tem uma mescla de diversas raças. Para que não se seja ofensivo, e para que se possa conviver harmoniosamente, é necessário ser inclusivista. Isso significa dar vez e voz a todas as culturas e raças representadas.

Na sociedade pós-moderna, o conceito ser estende para incluir os grupos moralmente orientados. Significa especialmente repartir o poder com as minorias anteriormente oprimidas pelas estruturas de poder, como negros, "gays", mulheres, e raças minoritárias.

Existem coisas boas do inclusivismo multiculturalista, como por exemplo, estudos nos meios acadêmicos sobre a cultura de raças minoritárias e oprimidas no ocidente, como africanos, hispânicos e orientais. Também a criação de bolsas de estudos e empregos para membros destas minorias raciais, bem como de grupos oprimidos, como as mulheres. Ainda digno de nota é a luta contra discriminação baseada tão somente em raça, religião, postura política e gênero.

Mas existem coisas que nos preocupam no inclusivismo. A maior de todas é que o inclusivismo exclui qualquer juízo de valor em termos morais, religiosos, e de justiça. Tem que ser assim para que o relacionamento multicultural e multi-moral funcione.

O inclusivismo acaba também influenciando na interpretação bíblica. Sua mensagem é abordada do ponto de vista do programa das minorias. Por exemplo, a chamada "teologia negra," a teologia da libertação, teologias feministas. Outra coisa é a tendência cada vez mais forte de se publicarem traduções da Bíblia sem linguagem genérica ofensiva, isto é, tirando todas as referências a Deus como sendo homem, etc.

Um terceiro aspecto da pós-modernidade que influencia a leitura da Bíblia hoje é o relativismo. O relativismo, no que tange ao campo dos valores e dos conceitos morais e religiosos, é a idéia de que todos os valores morais e as crenças religiosas são igualmente válidos e que não se pode julgar entre eles. A verdade depende das lentes que alguém usa para ler a vida. O importante é que as pessoas tenham crenças, e não provar que uma delas é certa e a outra errada. Não há meio de se arbitrar sobre a verdade porque não há parâmetros absolutos. Desta forma, alguém pode crer em coisas mutuamente excludentes sem qualquer inconsistência. Ninguém pode tentar mudar a opinião de outrem em questões morais e religiosas.

Existem alguns perigos no relativismo quanto à leitura da Bíblia. Primeiro, o relativismo acaba por minar a credibilidade em qualquer forma de interpretação que se proponha como a correta. Segundo, acaba por individualizar a verdade. Cada pessoa tem sua verdade e ninguém pode alegar que a sua é superior à dos outros. Portanto, ninguém pode ter a pretensão de converter outros à sua fé.

Muitos evangelistas tentam suavizar a sua interpretação da mensagem do Evangelho, excluindo os elementos que não são "politicamente corretos" como: pecado, culpa, condenação, ira de Deus, arrependimento, mudança de vida. Acaba sendo uma tentação de escapar pela forma mais fácil do dilema entre falar todo o conselho de Deus ou ofender as pessoas.

Esses são alguns dos perigos que a pós-modernidade traz à leitura e interpretação das Escrituras. Reconhecemos a contribuição da pós-modernidade em destacar a participação do contexto e do leitor na produção de significado, quando se lê um texto. Porém, discordamos que isso invalide a possibilidade de uma leitura das Escrituras que nos permita alcançar a mensagem de Deus para nós e de ouvir a voz de Cristo, como Ele gostaria que ouvíssemos.

Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: [ IPCB ]

domingo, 30 de maio de 2010

Não Julgueis, para que não Sejais Julgados - Parte III

Jesus disse: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7:1). Este versículo é citado por muitas pessoas para condenar qualquer pessoa que critica as doutrinas ou práticas religiosas de outros. Ironicamente, as pessoas que assim usam o texto não percebem que estão julgando a outra pessoa culpada de desobedecer esta proibição! É pecado julgar? Como é que devemos entender essas palavras de Jesus?

Jesus condena o julgamento hipócrita. Ele emprega uma imagem engraçada para ilustrar o ponto. Uma pessoa está sofrendo por causa de um cisco no olho, quando vem a outra oferecendo tirá-lo. Só que a outra, o juiz hipócrita, tem uma viga no olho dela! Jesus disse que temos que tirar nossas próprias vigas antes de remover os ciscos dos outros. Não devemos condenar os probleminhas dos outros quando praticamos pecados mais graves.

Jesus condena a atitude negativa do censor. Algumas pessoas vivem para criticar, sempre procurando e destacando as falhas dos outros. Tais pessoas convidam outros a ser críticos, também. Quando condenamos as pequenas falhas de outros, eles terão motivo para nos condenar (considere o exemplo do servo que não perdoou o outro, Mateus 18:23-35).

Jesus não condena a avaliação dos outros. Mateus 7 mostra claramente que Jesus não está condenando a avaliação dos outros. Temos que discernir entre o certo e o errado, e entre as pessoas que praticam as coisas de Deus e as que andam no erro. No versículo 6, Jesus exige o julgamento de pessoas que ouvem o evangelho, e a rejeição dos "porcos" e "cães". Do versículo 15 ao 20, ele ensina sobre o julgamento de professores pelos frutos (veja Mateus 16:6,11-12).

Paulo exige o julgamento. Não é o bastante dizer que o servo de Cristo pode julgar. O discípulo de Jesus é obrigado a julgar! Às vezes, alguém na igreja terá que julgar outros irmãos para resolver problemas (1 Coríntios 6:1-5). Em geral, todos nós temos que julgar todas as coisas, retendo o bem e rejeitando o mal (1 Tessalonicenses 5:21-22). Para discernir entre essas coisas, é necessário crescer espiritualmente (Hebreus 5:12-14). As pessoas incapazes de julgar continuam como crianças, como pessoas carnais (1 Coríntios 3:1).

O propósito do julgamento que Deus exige de nós não é para condenar ninguém ao castigo, mas para evitar o pecado e ajudar outros, também, ficarem livres do mal.

Não julgueis, para que não sejais julgados - Parte II

Muitos leitores da Bíblia acham Mateus 7:1-12 uma passagem desafiadora, difícil de ajustar dentro da estrutura do resto do Sermão do Monte. Ela parece, ao primeiro exame, consistir de três parágrafos independentes, sem um tema comum. Isto fez com que alguns presumissem que eles tivessem sido enunciados em outras ocasiões e incluídos aqui posteriormente. Esta é uma solução desnecessariamente radical que só serve para lançar dúvida na exatidão do relato de Mateus.

Jesus não está nos proibindo de fazer qualquer comentário que seja acerca dos fatos que nos rodeiam. Muito pelo contrário, em nossos tumultuados dias, precisamos cada vez mais de discernimento, ou seja, da capacidade espiritual de julgar um fato, à luz das verdades Bíblicas, e esse dom somente é exercido através de julgamento. 

O que estes ensinamentos, aparentemente não relacionados, quando mal analisados, podem ter em comum é que trazem consigo alguns avisos necessários a complementar a instrução anterior de Jesus em seu contexto. Trocando em miúdos, trazendo as palavras proferidos por Jesus para nossos dias, seu sentido seria algo como isto:

"Nosso próprio acurado entendimento da justiça do reino não deverá produzir em nós um espírito de julgamento áspero e reprovador contra aqueles que estão tendo uma luta em servir a Cristo. Os homens precisam ser ajudados a ver a natureza da verdadeira justiça, mas não por um descuidado e convencido hipócrita que está mais preocupado com os pecados alheios do que com os próprios. Se o Sermão for aplicado primeiro em casa, facilmente encontraremos a compaixão e a humildade para tratar dos pecados alheios (7:1-5)."

"A partilha do evangelho do reino é um trabalho absolutamente vital, mas precisamos estar avisados a não desperdiçar nosso tempo com aqueles que não têm nenhum interesse nele. O reino de Deus não é propagado por um cego fanatismo mais do que pelo exercício de uma árida crítica. O filho do reino está em busca daqueles cuja atitude torna-os maduros para receber as boas novas da redenção, e não de homens e mulheres cujo orgulho impossibilita-os de ouvir e entender (7:6)."

"E finalmente, o reino não é obtido por esforços heróicos e meritórias realizações, mas simplesmente por pedi-lo com seriedade. O reino é uma dádiva do amor de Deus (7:7-12)."

sábado, 29 de maio de 2010

Não Julgueis, para que não Sejais Julgados

"Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7:1-2).

A palavra grega krinete, aqui traduzida como "julgar", pode conter, tanto no grego como no português, uma extensa escala de significados, desde discernimento até condenação. O contexto aponta claramente para este último sentido. Nem o exercício de uma judiciosa discriminação (exigida claramente por 7:6,15-20), nem a existência de tribunais de justiça estão sendo proibidos. É um espírito condenatório sem misericórdia que Jesus rejeita. Isto é corroborado pelo material paralelo em Lucas, onde a advertência contra o julgar os outros é precedida pela positiva "Sede misericordiosos, como também misericordioso é vosso Pai" (6:36). Nesta admoestação, Jesus volta ao tema do amor fraternal, que atingiu o clímax em Mateus 5:43-48. No relato de Lucas do Sermão, os dois trechos são imediatamente juntados (6:27-38). O ponto de nosso Senhor é que pessoas tão necessitadas de misericórdia não têm nenhum direito para ser tão sem misericórdia com os outros. Esta advertência é apenas a face oposta de sua promessa anterior, que aqueles que mostram misericórdia receberão misericórdia (Mateus 5:7) e aqueles que perdoam serão perdoados (Mateus 6:12). Aqueles que condenam outros sem compaixão ou intento redentor podem esperar o mesmo tratamento nas mãos de Deus, uma expectativa que causa calafrio.

"Porquê vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?" (Mateus 7:3-5). Porque o tipo de julgamento em discussão é sem amor e egoísta, ele é freqüentemente acompanhado de hipocrisia. Por esta razão, Jesus pinta o quadro patético e humorístico de um homem tentando extrair um grão de areia do olho de outro, enquanto uma trave está saliente no seu. Espiritualmente falando, há uma grande quantidade destes cegos oculistas que estão muito preocupados em ver as faltas dos outros e estão esquecidos da enormidade das próprias. Afortunadamente, uma séria atenção com nossos próprios erros tem o efeito de nos equipar com humildade suficiente para tratar paciente e habilmente com os pecados alheios (Gálatas 6:1-3; Tito 3:2-3).

A maior dificuldade prática que se prende a este familiar conjunto de versículos é a idéia popular de que ele quase proíbe toda forma de reprovação, seja qual for o motivo. O largo contexto do Novo Testamento torna impossível este entendimento. O ensinamento de Jesus contém muita repreensão (por exemplo, Mateus 23 e o texto presente), entretanto, nunca áspera ou severa. Como o próprio Senhor observou, "Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (João 3:17). E esta é a chave. Não é a reprovação amorosa e que resgata que o Senhor rejeita aqui, mas os ataques sem amor que servem somente para alimentar o ego do "juiz."

O evangelho da graça não pode ser pregado sem convencer os homens do pecado (João 16:8) e chamá-los a mudar o coração (Lucas 24:47; Atos 2:38; 3:19; 17:30). Mesmo as almas do povo redimido de Deus não podem ser protegidas sem se admoestar os insubmissos (1 Tessalonicenses 5:14) e procurar converter "o pecador do seu caminho errado" (Tiago 5:19-20). Mas tal correção é oferecida com amor que redime, não como o veículo do orgulho e da ira. A justiça do reino adverte, mas não ataca. Os cidadãos do reino de Deus, lutando com seus pecados e assediados por fraquezas, necessitam de um irmão e não de um "juiz". Em todos os nossos tratos com outros, precisamos lembrar que não somos agentes do julgamento do Senhor, mas de sua salvação. A vingança pertence ao Senhor. Nossa tarefa é buscar e salvar o perdido.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Chamados a servir

"Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço." - At. 6:3

Quem eram os "sete"? Eram diáconos? Se lermos toda a passagem do capítulo 6 de Atos (v. 1-6), não encontraremos nenhuma referência a diácono no texto. Por que, então, se diz que estes homens eram diáconos?
Devido ao verbo grego diaconeo, utilizado para descrever a função deles (v. 2). Contudo, esse termo tem como significado apenas "servir". Isso fica ainda mais claro, quando vemos o substantivo grego que dá nome ao ofício do diaconato, logo em seguida, aplicado não aos "sete", mas aos "doze". O termo "ministério" no verso 5 é o termo diaconia. Se formos dizer que os "sete" eram diáconos meramente devido ao verbo utilizado, teríamos que dizer que os apóstolos também o eram, devido ao substantivo atribuído a eles no mesmo contexto.
Lucas trata os apóstolos aqui chamando-os de "doze". Certamente, uma referência enfatizando o povo judeu. Este número tinha significado especial para Israel devido às doze tribos, também indicando o mesmo número de apóstolos chamados por Cristo, todos eles judeus.
Contudo, o número 7 representava os gentios, isto é, aqueles que não tinham a descendência de Abraão, em outras palavras, quem não era judeu. Lucas, companheiro de Paulo nas missões gentílicas, é o único que relata em seu evangelho o envio dos 70 (Lc. 10:1-20), número que os judeus atribuíam às nações do mundo listadas em Gn. 10. O 7 resumia esse significado.
Ainda mais relevante é o fato de todos os sete eleitos terem nomes gregos, incluindo um que era prosélito, Nicolau de Antioquia. Um prosélito era um gentio convertido ao judaísmo. Os sete eram todos helenistas, o que sugere que representavam uma liderança de judeus helenistas. A lista dos seus nomes inicia com os dois que mais se destacaram, distinguindo-os dos demais.
De Estêvão se diz que era "homem cheio de fé e do Espírito Santo" (At. 6:5). Tal distinção é feita devido à sua morte trágica, tornando-se o primeiro mártir do cristianismo. Tal relato e sua experiência de ver o Cristo glorificado (At. 7:56) não apenas informa, mas incentiva a igreja a perseverar até à morte diante das perseguições. Quanto a Filipe, ele foi o evangelista mais destacado na primeira metado do livro de Atos (8:4-13, 26-40). O que há de comum entre Estêvão e Filipe, além da responsabilidade que assumiram no grupo dos sete? Estavam pregando a Palavra, ou seja, não se limitaram à função que receberam. Estêvão parece ter se dedicado aos judeus helenistas em Jerusalém, pois foi "denunciado" pelos da sinagoga dos Libertos, judeus da dispersão que haviam sido escravos (At. 6:9). Filipe vai pregar em Samaria, algo muito mais difícil para um judeu da Judéia e menos complicado para um judeu helenista acostumado a viver entre os gentios (At. 8:4-13). Depois o vemos evangelizando um etíope (At. 8:26-40). Digno de nota é o relato do surgimento do apóstolo judeu helenista Saulo de Tarso ser introduzido por Lucas pela primeira vez em sua narrativa, justamente testemunhando a morte de Estêvão, um dos sete helenistas de Jerusalém. Claramente seu propósito foi vincular a história dos sete ao ministério gentílico desenvolvido algum tempo depois por Saulo. Lembre-se que Saulo não buscava apenas os gentios, mas procurava inicialmente os judeus das cidades gentílicas por onde passava. Seu apostolado era para judeus helenistas da dispersão, e também para o gentio (Rm. 1:16; 9:2).
Qual a conclusão a que chegamos? Os apóstolos concordaram com uma liderança helenista fora da jurisdição deles? A eleição dos sete oculta uma dissensão que na verdade era um racha na igreja? Obviamente, não.
Vemos que prontamente Pedro e João descem a Samaria após receberem notícias que o evangelho havia chegado ali pelo ministério de Filipe. Os samaritanos receberam o Espírito Santos pela oração e imposição de mãos dos apóstolos (At. 8:17). Não vemos competição entre os doze e os sete, mas cooperação e submissão por parte destes. Eles eram uma única igreja, embora naquele momento inicial pareça que buscavam evangelizar aqueles relacionados às suas raízes. Contudo, vamos à pergunta crucial: eram eles diáconos? É um anacronismo chamá-los de diáconos, isto é, esse termo e ofício só aparecem mais tarde nas igrejas gentílicas. Um dos critérios levantados para observar a antiguidade de uma carta de Paulo é a ausência de referência a presbíteros e diáconos, como por exemplo a carta aos Gálatas e as duas cartas aos Tessalonicenses, sugerindo uma data quando ainda não havia sido estabelecido esse modelo de liderança.
Todavia, podemos dizer que provavelmente é uma espécie de "ancestral" do ofício do diaconato como visto posteriormente nas igrejas gentílicas, por exemplo Fl. 1:1; 1Tm 3:8-13.
Finalmente, não estamos exagerando quando dizemos que o grande ministério da igreja é continuar a formar diáconos. Todos nós temos um chamado diaconal. Todos nós fomos chamados a sermos homens e mulheres cheios de fé e do Espírito. TODOS NÓS FOMOS CHAMADOS A SERVIR.